da imensa e insólita maresia que nos separa
um marulhar de cânticos desfolhados
do tempo que voa até mim, o gesto lírico da emoção
das mãos do alfaiate do universo
a canção do mundo
entre muitos, um fio de palavras de veludo
a tecer a nudez de um verso
entrego meu corpo ao mar
e às pálpebras de um sol inacabado
vejo-me sucumbir ao mais ínfimo desígnio

acorrentado aos gestos marinhos
o coração tenta pulsar
num último fôlego, por entre as asas de renda,
recortadas da espuma branca
e eis que sinto as escamas que se desenham
esboço de um lumiar de memórias inóspitas  
tatuagens dos segredos partilhados junto ao mar

e enquanto os esquivos de água lavam a saudade
restos de momentos vagueiam no olhar

Varrem-se as estradas evolutivas
e constroem-se as encravadas...
Verdadeiros furúnculos antigos
fossilizam medos e angústias...

Pobres rostos,
perdidos na tentativa escassa,
achados na escada da fuga!




Mergulho num deserto estagnado
sem perceber o velcro deste engodo...

no chão molhado
o orvalho gotejante

nas folhas que o vento sustenta
um caminho de mil cores

lugares onde o coração se encanta
a cada gesto que a natureza inventa




(...) E de cada vez que o corpo pedia sono
o cravar de mais um sonho
na minha janela crua...



Lembro-me das cortinas de tule branco,
por onde espreitava a vida com que sonhava.
E no corpo que me rejeitava em tenra idade,
um poço de sonhos e saudade...
Era tudo o que eu tinha.
(...)
Lembro-me que pela janela
inventava-me no mundo!
Corria e bailava nas calçadas da rua,
percebia e tocava os contornos do sol,
e à noite, beijava a face da lua...
(...)
Lembro-me das histórias de encantar
a entoar do fundo do mar…
Do sonho de querer abraçar o mundo
e não mais soltar...
(...)
Sei que jamais poderei galgar
ao exílio do mundo.
Cativo da vida,
sou pássaro sem asas,  
num voo sem volta.

(Fragmento de um conto)
(...) Sem que se tivesse dado conta, o dia apagou-se. Num aconchego cósmico, a noite chegara de mansinho, tão brilhante que fazia qualquer olhar ancorar-se na lua (...) Era uma manhã perfumada pelas amendoeiras doces... As flores do prado sorriam para as andorinhas, enquanto os cometas se escondiam do outro lado do mundo (...) O olhar curioso não lhe cabia no rosto (...) Um lugar onde as janelas são poemas, onde os jardins são os da alma e os caminhos, do coração...

era para nós uma estreia, essa tela
uma pintura de verde mesclada de branco
uma obra do vento embalada no tempo



(do poema, Inocência)
Sob a estrela luminosa
sol ou lua
a vida corre e tropeça
como criança
sorridente e nua
(...) vestindo a inocência
percebe os detalhes
que à maioria dos já vividos
escapam ao primeiro encontro.
um tempo que não é tempo
um tempo onde não há lugar a calendários
nem relógios
um tempo onde o momento
não tem fim
  (fragmento de um conto)
A canção soava, enquanto um pincel que não se podia ver, as pintava naquela doce e inspiradora aurora boreal (...) Estava frio. Quase podia agarrar a fumaça da minha voz que se desenhava no ar. Aconcheguei-me recostada ao tronco de uma longa e velha árvore despida. Após alguns devaneios, os pensamentos já sobrevoavam a luz violeta que entrava pelas linhas finas do meu olhar cerrado. Adormeci sob o regaço dos céus, no colo da floresta branca.
(...) que a Terra dispa as vestes brancas do inverno e se prepare para receber a estação das folhagens de cetim e dos amores-perfeitos.


na tangibilidade do cordão da essência,
entrelinha onde se afigura um corpo de sentidos absortos.



(...) sinfonia utópica
suada dos recantos mais velados

(...) a cada curva do universo
a cada estrela que se agarra
a cada dia que se apaga em noite árida

(...) a ecoar na sombra côncava do tempo
se eu pudesse
gravava o rio na minha alma

(...) fossilizava as imagens de areia
na superfície da minha pele

(...) então o rio nascer-me-ia dos dedos








invisível ao ouvido
mais do que acolher um luar perdido
desperta do sonho a canção de um surdo

(...) esse grito de silêncio






bato asas, e ao caír das plumas
no esvaldar das sombras
lanço-me no cativeiro das palavras ecléticas




(...) luar aprisionado
ao bailar dos pensamentos nus
(...) tela esculpida

em matéria de inocência



é a prece divina no orvalho a gotejar
lascas de luz caídas ao luar
palavras desabotoadas 
feito as pétalas de sol ou a espuma do mar

... e assim se fazem as flores, as árvores, 
os peixes e os pássaros





bailando ao som de um olhar
sem bússola...







desintegro-me nesses mares
e torno-me num deles...

contornando as visões etéreas
e desalinhadas do tempo
dos braços da árvore rasgada
ao colo da maresia







luzindo na madrugada de fogo
rito fugaz, seiva de rosa
esplendor em cor ardente

sempre que a paisagem corre (...)
os relógios páram desalinhados no tempo.




o esvoaçar da borboleta
e o cântico dos pássaros


o sussurrar do vento
a embalar as ondas do mar

estas são apenas algumas das formas
que Ele encontrou para nos amar...


a imaginação flui
o pensamento constrói
e o sonho nasce.



   


castelo de medos no pensamento
muros construídos com desalento e lágrimas
um Eu bloqueado na dor da lembrança

a inibir a saída da prisão do desespero!





Gravita o silêncio no desatino de um grito
esmorece a palavra em tonalidade surda
louca desfragmento em lágrimas a saudade!




suspiros marinhos e beijos de coral

(...) que o mar despe e guarda em mim




um estado d`alma que se manifesta
a cada verso que a Natureza (en)canta...




Raiava a melodia Tu e Eu
No alto daquele monte
Lugar encantado
Onde o mar é horizonte
Templo do mundo
Onde as árvores falam...







...mostraste-me que a utopia pode ser realidade
que através do amor tocamos o sonho...








...girassóis coloridos
sorriem para mim em pétalas desfolhadas
e se espalham por entre as sombras amareladas
dos pequenos asfaltos de terra.


...uma brisa enternecedora
de beijos de jasmim e eucalipto...
...fazendo-me caír nos braços da pedreira
onde me diluo que nem aguarela
nessa mescla de ervas limão-cidreira.



...sonhos ansiados, pendurados na lua errante
de noite adormecidos, como segredos escondidos
na púrpura do tempo

(...) e o dia acorda desperto pelo sonho...
(fragmento de um conto)
(...) apesar de já divagar por entre os véus
da noite escura, gravei em mim
um pensamento atado às Cores caídas (...)
Sentia no ar um aroma a calêndulas divinal. Como que um desenho a preto e branco,
pouco a pouco o mundo enchia-se de cor.
Sim, eu podia vê-lo...Era o Sol.
Espreitava sorrateiro na
clareira da madrugada húmida,
não hesitei nem mais um segundo!
Corri rumo aos prados perfumados
pelo orvalho gotejante, e lá estavam elas...

as Cores que ontem me falavam no horizonte cósmico,
agora reluzentes nos botões das flores,
nos braços das árvores, nos corpos dos insetos
e nas asas dos pássaros!  



 
quando a lua se deita sobre a colcha etérea do mar...

símbolo errante, cristal d´água.